Projeto Ajustados - Versão analógica
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Ajustados: O Abandono paterno brasileiro na perspectiva dos álbuns de família

O projeto fotográfico documental "Ajustados: O Abandono paterno brasileiro na perspectiva dos álbuns de família" é uma análise sobre o fenômeno do abandono paterno no Brasil, a partir de uma elaboração sobre a estética dos álbuns de fotografia de família. O projeto é baseado em uma frase dita pelo Vice-presidente eleito de Jair Bolsonaro (PSL), General Hamilton Mourão. No dia 17 de setembro deste ano, Mourão afirmou que o país vive uma crise de valores e que famílias desestruturadas, sem pais, são uma "fábrica de elementos desajustados".

 

No Brasil, são pelo menos 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro, de acordo com um levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 2011. Já dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 mostram que 57,3 milhões de lares são chefiados apenas por mulheres no país, ou seja, 38,7% das casas.

Apesar de os dados mostrarem o quão comum é a situação da ausência paterna, principalmente motivada por abandono, o tema é pouco discutido e muito normalizado. Nesse sentido, a fala de Mourão veio como uma gota d'água para muitas dessas famílias e mães solo e foi uma das grandes motivações do movimento #Elenão que tomou o país entre o primeiro e o segundo turno das eleições, em repúdio à candidatura de Bolsonaro.

A ideia do projeto surgiu nesse contexto, com o objetivo de contar as histórias de algumas dessas famílias, e principalmente, ressaltar o afeto e o “ajuste” encontrado por elas, independentemente da figura paterna, mas também, as dificuldades, a saudade, o cansaço e as demais consequências da ausência para as mães e filhos.

 

A metodologia do projeto se deu por meio da retomada da linguagem dos álbuns de famílias, que na última década vêm sendo centro de novas análises e debates na teoria da fotografia. A fotografia dos álbuns de família, analógica, foi democratizada no Brasil apenas nas últimas décadas da segunda metade do século XX, talvez alcançando um ápice na década de 1990 e logo sendo impactada pelos registros digitais. Para Miriam Moreira Leite, em seu livro “Retratos de Família”, a democratização da fotografia permitiu que “quase toda gente – não só os mais abastados – pudesse se transformar num objeto-imagem, ou numa série sucessiva de imagens que mantém presentes momentos sucessivos da vida, ou ter presente a memória.

 

Dessa forma, os álbuns enquanto fenômeno popular tiveram uma curta mas simbólica existência, possuindo um caráter identitário muito forte, além de terem se tornado um dos principais arquétipos de preservação da memória familiar. No livro “Álbum de família, a imagem de nós mesmos”, o pesquisador Armando Silva analisa as narrativas criadas nesse tipo de arquivo.

O álbum será construído do ponto de vista das gerações que participaram dele (avós, pais, filhos), das regiões culturais, da idade ou do sexo dos narradores. (...) O álbum é um livro que possui começo e fim. Embora não se trate de inícios e fins rigidamente definidos, estes existem, em alguns casos mais que em outros. Se um álbum inicia sua história contando-nos sobre a gravidez da mãe e continua com o nascimento da criança e sua vida posterior na família central, até, digamos, quando ela se casa, haverá uma coincidência entre o começo e o fim da história, como acontece em um romance tradicional, realista. Mas não tem que ser assim. Pode ser que (...) a narrativa comece com a morte de um ente quero, a mãe, e prossiga com a história do neto, deixando toda uma geração no esquecimento ou na ignorância visual. (...) O álbum tem seus caprichos nas formas de mostrar ou de esquecer. (SILVA, ARMANDO. 2008. p. 29/ p. 31/ p. 32)

 

Assim, os álbuns de família acabam sendo um depositório inconsciente da narrativa desejada para a construção da história daquela família. Nesse sentido, o comum é que os temas escolhidos para se fotografar, e a edição deles nos álbuns, retratem momentos de alegria e união da família, como aniversários, festas, nascimentos. Dessa forma, como ressalta Silva, há momentos e características essenciais para a descrição de cada família que não são retratadas nos álbuns, como a morte, ou outras formas de perda. A ausência, no caso desta pesquisa, do pai, é um exemplo. Ao mesmo tempo, a presença de fotos do pai, mesmo que poucas e que em determinados momentos, é marcada nos álbuns. Segundo Silva, a construção dos álbuns foi caracterizada como uma atividade feminina na América Latina.

Além do ponto de vista familiar, há outra qualidade grupoal: alguém narra as histórias, a família, seu narrador coletivo; contudo, outro as conta, em geral a mãe, a avó, a filha mais velha, a irmã ou a tia, e isso as torna uma história de mulheres. Dessa forma, o álbum não só é visto, mas especialmente ouvido (com vozes femininas). SILVA, ARMANDO. 2008. p. 19)

          

A partir deste entendimento, foram utilizados como ponto de partida para a pesquisa das histórias das famílias, mas também como referência estética para o projeto, tanto os álbuns das famílias que acompanhei, quanto a própria estética desta fotografia analógica, de plástico, de pó, com características muito particulares de um registro feito por aqueles que não estudam fotografia.

Passei algumas horas com quatro famílias selecionadas, que se encaixaram no perfil do abandono paterno, e também foram intercaladas por classe social e raça. É sabido que o fenômeno é mais observado nas classes mais baixas brasileiras, mas o projeto tentou também desconstruir essa suposta essência determinante.

A metodologia da documentação das famílias teve início com entrevistas de cerca de quarenta minutos, nas quais a família foi convidada a contar sua história. O objetivo foi entender o papel, importância e impacto do abandono no desenvolvimento daquela família. Em paralelo, as famílias foram convidadas a observar e mostrar seus álbuns de famílias. Minha fotografia captou tanto os momentos de observação dos álbuns quanto os momentos cotidianos daquela família. A ideia era retratar momentos de emoção não necessariamente alegre, e de normalidade cotidiana, para, justamente, propor também uma oposição crítica aos momentos que geralmente são retratados nos álbuns.

A princípio, a ideia original do projeto era documentar as famílias por meio da fotografia digital e analógica, esta última, feita com câmeras de plástico que remetessem também àquelas utilizadas pela maior parte das famílias brasileiras. Por conta de contratempos envolvendo a fotografia analógica (um filme queimou devido a um acidente no qual a câmera se abriu ainda com o filme não revelado) e também falta de experiência com a fotometria analógica, a ideia original foi parcialmente abandonada.

O produto final do projeto é um ensaio documental, intercalando entre o digital e partes analógicas. O ensaio será revelado e também colocado em um álbum de fotos, que será disponibilizado para exibição dentro de uma caixa usada de sapatos. As fotos são intercaladas nos álbuns com pedaços de papel que trazem citações trazidas por familiares durante as entrevistas. A ideia é justamente remeter, novamente, à estética brasileira de preservação dessa memória.

Além disso, a versão digitalizada do ensaio é precedida por um vídeo de um dos filhos de uma das famílias escolhidas folheando um álbum de fotos no qual o pai aparece nas primeiras páginas, e deixa de aparecer no final. O vídeo foi realizado com meu companheiro Juliano Vieira, que sofreu o abandono paterno por volta dos oito anos de idade, decorrente principalmente do alcoolismo. O objetivo do vídeo é metaforizar a linha do tempo da ausência, e a forma como ela se manifesta neste objeto de memória, abrindo, desta forma, o projeto.

Em uma das famílias fotografadas, uma grata surpresa se somou ao resultado final do projeto. A mãe Solange, teve quatro filhos com José Carlos: Juninho, Luidgi, Ana Luiza e Victor. Em 2006, ela decidiu se separar dele e, desde então, o pai encontra os filhos com uma frequência mínima de dois em dois anos. Tendo se mudado para o Rio de Janeiro, ele não paga pensão ou ajuda na criação deles. Quando questionada sobre as fotografias analógicas que a família possuía, Solange confessou que João Carlos havia levado a maior parte. No entanto, durante o processo do ensaio, ela se lembrou que havia dois rolos de filmes nunca revelados, fotografados no dia em que a família se mudou para aquela casa, no Jardim Eldorado, periferia de Diadema (SP), há mais de uma década. Os negativos, parcialmente danificadas pelo tempo, foram revelados no laboratório Gibo Lab, e retratam justamente um momento de aniversário.

Em outra família fotografada, a mãe Elizabeth e o filho Thiago tinham uma única imagem restante do pai, que apenas registrou o filho quando ele tinha 17 anos de idade. Na imagem o pai aparece junto com companheiros de um time de futebol. Em compensação, Elizabeth, negra, possui em um álbum fotografias muito antigas herdadas de sua família, que chegam a retratar inclusive suas bisavó e madrinha, Laurinda, que foi escravizada até os 15 anos de idade. Ela é a primeira ascendência conhecida, e não há fotografias de familiares que vieram antes dela. A observação das imagens pela família, neste caso, também serviu para a auto afirmação da identidade negra descendente africana, e enquanto sujeitos que tiveram diferentes partes de seu passado e memória sequestrados e apagados.

Ficou claro, também, que a memória da imagem não só difere da memória da palavra como chega, em alguns casos, a substituir a própria memória. Algumas pessoas não se lembram do que aconteceu, mas do retrato do que aconteceu . Como a fotografia é utilizada para reforçar a integração do grupo familial, reafirmando o sentimento que tem de si e de sua unidade, tanto tirar as fotografias, como conservá-las ou contemplá-las emprestam à fotografia  de família o teor de ritual de culto doméstico. (...) O reconhecimento das fotos de família podem funcionar como um desencadeador de lembranças múltiplas e constituir, de um lado, uma forma de resgatar um passado esquecido e de outro (LEITE, Miriam Moreira. 1993. p. 18/ p. 87. p. 135)

 

Além do resultado imagético do projeto, o produto visual em si, foi possível perceber, posteriormente ao encontro com as famílias, um grande apresso pelo encontro e pelas elaborações causadas pelo debate do tema do abandono paterno. Obtive espontaneamente o retorno de integrantes das três famílias fotografadas agradecendo pelo que chamaram de um processo catártico e importante para a construção da intimidade, pela resolução de questões e problemas até então abafados, e por um maior entendimento dos efeitos do abandono na sua identidade. 

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