Vila dos Pescadores e a Cava Subaquática

Maria Vitória tem 8 anos, pele negra e grandes olhos amendoados. Com movimentos ágeis próprios de uma caiçara, ela entra e sai dos barcos de pesca atracados na palafita de seu avô, apontando ora um filhote de siri escondido, ora uma boneca Barbie que flutua entre o lixo da água quase imóvel debaixo da casa. “Eu sempre pego os brinquedos que passam na maré”, explica.

Neta de pescadores, a menina diz que não sabe nadar, embora tenha como quintal o rio Casqueiro, que divide as cidades de Santos e Cubatão, no litoral paulista. Além de toda a poluição visível, a região foi conhecida no passado como Vale da Morte por ter sido considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1981, a cidade mais poluída do mundo. Hoje, a ameaça de um novo desastre ambiental volta a rondar a região. O motivo: uma cava subaquática.

Iniciada em 2017, a cava é um buraco com diâmetro maior do que o estádio do Maracanã e 25 metros de profundidade, escavado pela empresa VLI Multimodal S.A. debaixo das águas do estuário de Santos, ambiente aquático de transição entre o rio e o mar onde se localiza o porto mais movimentado do Brasil. O local onde a cava foi construída é chamado de Largo do Casqueiro e pertence à União.

Em si, a obra parece uma solução fácil para abrigar todo o sedimento dragado do canal de Piaçaguera, onde fica o Terminal Integrador Portuário Luiz Antônio Mesquita, de propriedade da empresa Ultrafertil, mas controlado pela VLI, empresa fundada em 2010 pela Vale para reunir todas as atividades de carga da mineradora: transporte em ferrovias, terminais e portos.

O canal de Piaçaguera desemboca no estuário de Santos. A obra em andamento busca aprofundar o canal, que tem cerca de 10 metros, para 15 metros, permitindo que navios maiores cheguem ao porto da empresa.

Com a dragagem, porém, o chão removido traz à tona uma longa história de contaminação. É como se fosse uma linha do tempo de poluição na forma de camadas químicas sedimentadas por décadas de atividade industrial na areia no fundo do canal. Entre os químicos sedimentados estão componentes altamente tóxicos e cancerígenos, como amônia, cianeto e mercúrio. A VLI garante que a quantidade de tóxicos é baixa, mas os moradores seguem preocupados.

Além disso, o processo de licitação da obra, feito pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), é alvo de ações do Ministério Público Federal (MPF). Licenças vencidas e irregulares e até mesmo indícios de improbidade administrativa por parte do órgão regulador e da VLI fazem parte dos questionamentos.

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