Maguari

À beira da Floresta Nacional dos Tapajós (Flona), localizada no Oeste do estado do Pará, vivem seus guardiões. Comunidades ribeirinhas, extrativistas, descendentes de povos indígenas que milenarmente atuam na proteção simbiótica das nossas matas, e de toda a vida que elas abrigam.

A comunidade Maguari é a porta de entrada da visitação turística na Flona, que tem como grande ápice a trilha de 18 km para a árvore Sumaúma “vovó”. Com mais de 600 anos de existência, a árvore exige mais de trinta pessoas para abraçarem seu tronco. A trilha guiada pela Flona se tornou, nos últimos 15 anos, uma das grandes formas de sustento da comunidade.

Dona Maria, que vive em Maguari desde os anos 1970, quando se casou com um de seus habitantes, é uma espécie de zeladora da mata. Com um livro de registros antigo, a idosa caminha à passos lentos para receber os visitantes, oferecer peixe frito, e exibir os colares que produz com sementes que ela mesmo extrai da floresta.

Dessa forma, apesar da imponência da sumaúma, basta chegar à Maguari para perceber que o foco da visita deveria ser os próprios moradores e a cultura local da comunidade. Após alguns minutos de trilha, o guia Juvenal deixa isso ainda mais evidente.

Na casa dos 60 anos, ele é um dos mais tradicionais guias da Flona. Ao longo da grande reserva ambiental, que tem como lar e conhece com impressionante detalhamento, Juvenal ensina a diferenciar inúmeras frutas, como produzir repelente natural esfregando formigas capiba vivas no corpo, ou também como enganar o curupira, criando uma coroa com galhos e jogando por trás da cabeça, para que o ele perca tempo desfazendo os nós.

Aliás, ela. Seu Juvenal jura que a curupira é mulher, e que confunde os homens que se aventuram pela mata para caçar, deixando-os perdidos por dias. A crença do guia traduz um dos traços culturais mais importantes da Amazônia: os encantados, folclore dos seres que vivem, cuidam, e por vezes vingam à mata. O cunhado do próprio Juvenal já ficou perdido por dias na floresta, ele conta, e quando foi encontrado, não lembrava de nada, apenas repetia que tinha sido vítima da curupira.

A comunidade Maguari envolve tanto à mata da Flona quanto às margens das águas verdes do Rio Tapajós, onde sua população, hoje com cerca de 100 famílias, banha-se diariamente. A comunidade ainda vive da pesca, e da caça, e é impossível delimitar seu perímetro excluindo os recursos da natureza. Mas hoje, também conta com uma escola base que abrange até o ensino médio, para onde alunos de diversas comunidades vão estudar. Também por esse motivo, Juvenal reclama que cada vez mais os jovens deixam os costumes, as lendas, e a sabedoria da mata de lado.

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