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Livro-reportagem

Por um pedaço de terra ou de paz - Crianças Refugiadas no Brasil 

"Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz” foi a definição que o estudante colombiano Juan Carlos Mejía, na época com 11 anos, deu para a palavra “guerra”. O trecho faz parte do livro Casa das Estrelas: O Universo Contado pelas crianças, uma espécie de dicionário feito pelo professor Javier Naranjo com um compilado de definições que seus alunos do ensino primário davam para palavras aleatórias.

O livro de Naranjo inspirou tanto o título deste trabalho quanto a ideia de criar um dicionário próprio a partir das entrevistas das crianças em situação de refúgio. Tal ideia se somou a uma série de abordagens que foram pensadas para colocar em prática a ideia de contar histórias sobre conflitos armados, violência, imigração e refúgio, através da perspectiva das crianças que as viveram e vivem.

A motivação principal deste trabalho começou a se definir a partir do impacto da comoção causada pela fotografia do menino curdo Aylan Kurdi, que morreu afogado em uma praia da Turquia em setembro de 2015, após tentar cruzar o Mar Mediterrâneo com a sua família, em fuga da guerra civil na Síria. O acontecimento foi uma espécie de divisor de águas para que o mundo ocidental ‘desenvolvido’ atentasse para a crise humanitária sem precedentes que vivemos, representada principalmente na imagem dos milhões de refugiados – dos quais, mais da metade, são crianças.

 

Desde o início, as implicações éticas de entrevistar e divulgar relatos e imagens das crianças em situação de refúgio no Brasil se tornaram a principal questão desta pesquisa, frente à vontade incontornável de escrever parte do trabalho através de perfis, por acreditar na maior profundidade que o formato representa dentre as demais opções jornalísticas.

Percebi que seria fundamental investir em alternativas para evitar entrevistas impessoais, descuidadas e sensacionalistas. Era necessário preservar ao máximo o conforto psicológico e a privacidade das crianças,  ainda que os próprios pais estejam acostumados com a divulgação dos rostos de seus filhos nas redes sociais. Mas ao mesmo tempo é essencial ouvir a própria versão das crianças.

Do entendimento de diversas(os) especialistas entrevistadas(os), que ressaltaram a recente, mas significativa exploração das imagens das crianças em situação de refúgio pela mídia, surgiu a ideia de pensar em abordagens alternativas e lúdicas para coletar o relato das crianças mais novas, que não passassem necessariamente pelo formato das entrevistas diretas.

Relatos no formato de desenhos, músicas, histórias e fotografias tiradas pelas próprias crianças, bem como definições pessoais de conceitos complicados como ‘país’ e ‘refúgio’, foram algumas das ideias iniciais. Além disso, o plano de tentar me encontrar várias vezes com cada criança e adolescente foi muito importante para criar uma maior proximidade e confiança com as personagens  e suas respectivas famílias. Por fim, os nomes das crianças foram trocados e as fotografias escolhidas não as identificam.

Com o passar dos meses, percebi que não precisaria necessariamente escolher em qual formato pediria para cada criança se expressar, visto que em conversas breves elas já demonstravam seus principiais interesses artísticos. Dessa forma, com certa espontaneidade, consegui coletar vários desenhos, músicas cantadas com seus sotaques poliglotas, leitura de seus contos favoritos e definições surpreendente para termos geopolíticos.

Lentamente, o formato deste projeto foi se adaptando à personalidade de cada criança, que passou e se apropriar dos respectivos perfis. Como percebeu com perspicácia uma das crianças sírias entrevistada, “esse é o seu primeiro livro e nem é você que está fazendo?”. Diante dessa possibilidade concreta de tomada da palavra por parte do outro, fica a esperança de que o jornalismo e a comunicação social no geral se tornem assim: cada vez mais nas mãos daqueles que tem muito que contar e denunciar, dos quais as vozes são sistematicamente sequestradas.

Outra escolha importante tomada no início deste trabalho foi a de tentar abarcar crianças de diferentes nacionalidades. Isso porque, apesar do contexto atual corresponder ao maior fluxo migratório da história, existe um perfil de crianças e pessoas refugiadas que aparecem na mídia, geram comoção e ação social, principalmente pela sua empatia com o mundo ocidental, fenômeno que será ressaltado adiante.

Finalmente, é importante assumir que este trabalho foi conscientemente produzido em duas partes, que, de certa forma, se complementam e ao mesmo tempo diluem as suas fronteiras.

 A primeira parte, traz – com o suporte dos referenciais bibliográficos e das(os) especialistas entrevistadas(os), e a partir de uma problematização dos conceitos de Estado, nação e território e da associação do refúgio com a ideia de crise – uma problematização da realidade de vulnerabilidade que as crianças refugiadas vivem, apesar das ‘garantias’ do direito internacional e nacional.

Na segunda parte, que traz os perfis com os relatos das crianças em situação de refúgio, as informações são passadas em caráter mais pessoal e lírico, na tentativa de humanizar as múltiplas estatísticas, teorias, artigos da legislação e posicionamentos englobados na primeira parte. Também é na segunda parte deste livro que acredito que o jornalismo, de fato, emerge: com personagens, sons, tecidos, cheiros e desconforto. Enfim, encontros.

Confira o Livro-reportagem digitalizado. 

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